De "res" a "persona", vozes e silêncio: a categorização dos negros na legislação brasileira em perspectiva dialógica do discurso
Resumo
Nesta dissertação, examina-se a tensão entre desigualdade e igualdade racial na
historicização do Brasil pela perspectiva discursiva. O estudo recorta do campo jurídico
textos normativos que regeram e regem as relações sociais desde o Brasil Colônia até os
dias de hoje. Nesses textos, rastreiam-se os modos como o negro é simbolizado na
linguagem, relativamente às categorias geopolíticas do território e aos domínios
experienciais ativados. No tempo dialógico, da cadeia comunicativa de normas jurídicas
estudadas, emerge uma dinâmica discursiva que encaminha a memória coletiva em torno
das tensões raciais, cuja perspectiva vai sendo paulatinamente alterada de uma memória
sobre o negro para uma memória também do negro. Com base na premissa de não cisão
entre linguagem e mundo, esta dissertação articula dois quadros teóricos. Por um lado, a
dimensão histórico-social é mobilizada pelo viés dos estudos bakhtinianos, especialmente
os estudos em Análise do Discurso de orientação dialógica. Por outro, a dimensão
sociocognitiva é tratada pelo viés da Linguística Cognitiva. Pela integração dessas
abordagens, descreve-se como o processo linguageiro, por meio do qual os negros
participantes da história do Brasil têm sido conceptualizados na legislação nacional, no
experienciar de três domínios – trabalho, religião e militância –, permanece a atualizar
tensões que constituem certa memória coletiva de sua participação na construção da
denominada brasilidade. Metodologicamente, o estudo parte da Lei Federal n. 12.288, de
2010, que instituiu o Estatuto da Igualdade Racial, e retrocede de forma não linear até as
Ordenações Filipinas (Livro V) de 1603 a fim de aceder aos discursos que incidem sobre
as tensões raciais. São analisadas as condições socioculturais que delineiam valores
estruturantes do campo e seus textos acerca dos povos negros em diferentes momentos da
história brasileira. São identificados e descritos nos textos jurídicos selecionados os
processos de categorização do negro e os processos enunciativo-discursivos pelos quais
a tensão entre os discursos da desigualdade e igualdade racial constitui certa memória
coletiva acerca desses povos e sua participação na cultura brasileira. Por fim, a partir das
pistas lexicais identificadas no corpus escolhido da legislação doméstica, nos domínios
experienciais mencionados, tais como “escravos”, “negros”, “elemento servil”,
“libertos”, “pretos forros”, “escravos de Guiné”, “cativos”, “réo escravo”, “cabeça de
escravo importado”, “pirataria de escravos”, “tráfico de africanos”, “escravo inválido”,
“vadio”, “capoeira”, “objeto de usufruto da coroa”, “afro-brasileiros”,
“afrodescendentes”, etc., é possível perceber como a alusão ao negro ativa processos
sociocognitivos tanto em quem a produz quanto naqueles que a mobiliza. Dessa forma,
faz espelhar valores historicamente em conflito que reverberam das leis até hoje e fazem
flutuar o negro da categoria coisa à pessoa. Esta dissertação traz contribuições interrelacionadas de duas ordens. Teoricamente, apresenta-se o alcance descritivo-analítico da
articulação de uma abordagem histórico-social com uma abordagem sociocognitiva da
linguagem. Do encontro desses dois vieses, emerge um dispositivo que atende ao desafio
de investigar como os contextos interacionais incidem sobre o funcionamento da
linguagem. Socialmente, a investigação contribui para a compreensão do percurso
discursivo pelo qual o negro, na historicização do Brasil, tem integrado a sociedade, desde
uma condição enunciativa absolutamente subalterna, quando é reificado, até uma
condição de sujeito discursivo que participa na construção das normas jurídicas.